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Rede de Gestores e Organizações do Terceiro Setor

“Terceiro Setor: Vocação ou Profissionalização?” (relato metabiográfico)

Leonardo Mascarenhas
(*) Leonardo Mascarenhas é membro da Coopbreja – Cooperativa de Produção e Consumo de Cervejas e Pães Artesanais, e da comunidade acadêmica da FaPP – Faculdade de Políticas Públicas da UEMG. Sua experiência profissional concentra-se na gestão de projetos sociais e de organizações do terceiro setor, com ênfase nas áreas de Economia Solidária, Saúde Mental e Esquizoanálise.

Desde o início, você sentia um incômodo, algo parecia não se encaixar, não estar certo. Você não sabia nomear isso, mas sentia. Algo definitivamente estava fora do lugar, faltava alguma coisa, e aquilo lhe fazia sofrer, no silêncio solitário dos seus pensamentos vagos.

Com o tempo, o seu incômodo foi se transformando em palavras e ação. Você encontrou alguns pares  – pessoas que, como você, sentiam o mesmo desconforto e queriam algo diferente. De repente você percebeu que o problema era menos com você e mais com o mundo: que as coisas que faltavam, que doíam, que inquietavam, estavam espalhadas por todos os cantos, e eram mantidas e possibilitadas por situações das quais você discordava.

Passou a sentir uma certa indignação, mesmo raiva de todas essas situações. Aprendeu a nomeá-las: injustiça, pobreza, opressão, discriminação, desigualdade, eram todos nomes que cabiam para resumir e explicar o que lhe incomodava.

De um jeito ou de outro, esses sentimentos foram te guiando pela vida, nas suas escolhas mais pessoais: os amigos que fazia, namorados ou namoradas que escolhia, os lugares que frequentava, os livros que lia e filmes que assistia, a profissão que escolhia… Pode ser que você tenha participado do grêmio estudantil do colégio, entrado para o partido comunista, feito trabalho voluntário numa creche, greve de fome ou mesmo não ter feito nada disso, não importa. O mais relevante é que aquele seu antigo incômodo continuava de certo modo vivo e latente, e, de alguma forma, você o colocava nas suas atitudes cotidianas.

Por outro lado havia também aquele-outro-sujeito, de repente maioria, para quem esses incômodos e sentimentalidades eram por assim dizer exagerados ou irrelevantes. Esse outro simplesmente vivia, sem se debruçar demasiado nessas questões que te consumiam. Perto dele, você parecia um alienígena: era comumente taxado de “louco”, “crisento”, “rebelde”, “chato”, “desajustado”… Tentavam dar outros nomes, que fossem inofensivos, àquilo que você, com tanto esforço e dor, custou a nomear.

Em algum momento, você resolve assumir todos esses incômodos e sacramentá-los como um estilo de vida. Custou mas você percebeu que andar por aí apenas carregando esses incômodos não era mais suficiente, e que a maioria dos lugares prontos e disponíveis não acomodavam as suas questões. Você precisava de novos lugares, novas instituições, feitas de pessoas que, como você, sentiam e viviam a rebeldia nossa de cada dia…
De um jeito ou de outro, em um tempo ou no outro, você conseguiu: encontrou ou forjou pra si mesmo um espaço que acolhesse as suas demandas. Fez desse lugar a sua morada mais íntima, o depósito e repositório das suas esperanças e paixões, a fonte do seu sustento, material e simbólico. Com todas as dificuldades que certamente definem esse tipo de lugar, alheio que é aos ceticismos e pragmatismos do mundo, você continuava, retirando a cada dia a sua dose anti-mundo-instituído…

E eis que, um belo dia, você descobre que haviam criado mais um nome, dessa vez pra definir esse seu lugar todo especial. Você e seus pares descobriram que faziam parte de um certo “Terceiro Setor”. Sem entender muito bem o que se passava, você seguiu em frente. Mas, pouco a pouco, foi percebendo que algo parecia diferente.

Você passou a identificar novos problemas e incômodos. Questões antes fundamentais, do tipo “como resolver as injustiças do mundo?”, foram perdendo espaço para outras ditas essenciais, do tipo “qual o indicador mais adequado para esse formulário?”. Não mais que de repente, você se viu envolto a mil e uma questões e problemas que não eram exatamente os seus por excelência, mas que, estranhamente, passaram a te definir.
Novos nomes alienígenas vieram: agora, além de “louco” e “desajustado”, você passava a ser “hipócrita”, “corrupto”… Na menos pior das hipóteses, um “despreparado” ou “amador”…

E você viu e acompanhou seus pares se transmutarem. Do alto da sua lentidão confusa-contemplativa, você percebeu que estava só, ou melhor, que você já não era tantos assim. Que os seus sonhos e incômodos haviam se oxidado, e agora disputavam lugar com qualquer coisa como aquele-outro-sujeito-descobriu-qual-o-indicador-mais-adequado…

As coisas em si ganharam novas formas, cores e discursos. O desvario indignado cedia lugar ao pragmatismo; a utopia, ao realismo. Você ouviu, incrédulo e reticente, que a partir de agora seus incômodos precisariam ser resolvidos com um amplo pacote de “soluções customizadas e emergenciais”: elaboração de projetos, captação de recursos, editais e chamadas públicas, indicadores de acompanhamento, monitoramento e avaliação, prestações de contas, atenção aos decretos “x” e “y”, relatórios técnicos com resultados e atividades… Os novos nomes compunham não apenas novas frases: construíam uma nova gramática.

Sem se dar conta, de repente você se depara lado a lado com aquele-outro de outrora e, embasbacado, percebe que ele se encaixa tão bem ou melhor do que você naquilo que deveria ser o-seu-lugar-confortavelmente-desajustado. Você se sente novamente um “louco”, “crisento”, “rebelde”, “chato”… Só que desta vez mais cansado. Reeditavam aqueles primeiros anos, onde o desconforto ainda não havia ganhado nome.
E isso lhe coloca exatamente aqui, nesse momento presente: você tem uma pergunta irremediável a responder, e outras mil a fazer. A sua questão fundamental agora é: “Que vai fazer com tudo isso?”.

E a verdade é que você já pensou em várias respostas… Já pensou em correr, tentar se esconder, buscar um novo lugar anônimo no qual depositar as suas demandas e expectativas. Você já pensou em fechar os olhos e continuar, engolir seco e aceitar que as coisas são assim mesmo, que talvez tudo não passou de uma rebeldia inconsequente sua, que é hora de crescer e aprender essa nova gramática estranha, por mais desprovida de sentido que ela possa parecer. Vai ver você encontra algum resquício de esperança escondida atrás de algum formulário ou relatório. Vai ver você agora devesse tentar exatamente isso: ser um arqueólogo das utopias, um escavador de esperanças, ávido por limpar o pó burocrático que vai se assentando nessas novas relações…

De um jeito ou de outro, por este ou aquele caminho, ou por outro completamente inimaginável neste momento, o fato é que você tem agora um impasse. E, talvez mais importante que buscar um final feliz no fim disso tudo, ou mesmo insistir inflexível em alguma ideia pré-concebida ou caminho seguro, possa ser você abraçar esse novo impasse e transformá-lo em mais um incômodo pra sua coleção. Porque assim você manterá acesa essa estranha chama que te impele e mobiliza, e que lhe possibilita continuar seguindo… E que, acima de tudo, lhe possibilita continuar acreditando nas suas escolhas – que, se não foram as melhores, pelo menos foram as mais dignas e corajosas.

4 comentários em ““Terceiro Setor: Vocação ou Profissionalização?” (relato metabiográfico)

  1. Íria Melo
    05/09/2012

    Ô Leo, por vários momentos achei que você estava falando de mim… rs
    “Pode ser que você tenha participado do grêmio estudantil do colégio, entrado para o partido comunista, feito trabalho voluntário numa creche, greve de fome ” fiz tudo isso!!

    e já me chamaram de tudo isso “louco”, “crisento”, “rebelde”, “chato”, “desajustado”…

    sinto que se trata de você! me sinto feliz por saber que me identifico com estas sensações, comportamentos, loucuras. Engraçado ver os desajustados, crisentos, rebeldes e loucos virando referência… é engraçado, mas não raro. Tal como não é rara a hipocrisia que consubstancia o desejo perverso de quererem nos ver presos em “hospícios” (presos em nós, presos na alienação, no embrutecimento da ignorância), posto que não aceitamos o que vem pronto… e, na visão deles, para piorar, nem calados ficamos quando o pronto negamos… criticamos, gozamos, ridicularizamos… ora intencionalmente, ora não. Léo, você é fera. Forte abraço!

  2. Fernanda Tarabal
    05/09/2012

    O Léo é fera meeesmo!!! Grande abraço aos dois, Léo e Íria!

  3. Henrique Quites
    05/09/2012

    “Uma ONG se define por sua vocação política, por sua positividade política: uma entidade sem fins de lucro cujo objetivo fundamental é desenvolver uma sociedade democrática, isto é, uma sociedade fundada nos valores da democracia – liberdade, igualdade, diversidade, participação e solidariedade. (…) As ONGS são comitês da cidadania e surgem para ajudar a construir a sociedade democrática com que todos sonham” (Herbert de Souza – “Betinho).

    Leo, parabéns pelo relato! Mantenhamos essa chama sempre acesa…! Grande abraço!
    Henrique Quites

  4. Além de “crisenta”, “rebelde”, “chata” tem aquele “acorda Alice! O mundo é assim desde sempre.”
    Mas continuo achando e acreditando que podemos diminuir as desigualdades e injustiças através da solidariedade, e da capacidade de nos colocar no lugar do outro e tentar sentir o que
    sentem e passam no seu dia a dia.
    Penso que, para atuar nesse seguimento é ideal que haja vocação, mas, diante da institucionalização do Terceiro Setor é preciso haver profissionalização para poder dialogar, questionar, rejeitar e/ou propor regras e normas do Terceiro Setor para o Governo e Órgãos regulatórios e não simplesmente ficar correndo atrás de meios para atender os requisitos solicitados por eles.

    Parabéns pelo texto, um grande abraço.

    Doralice

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