REDEGOTS

Rede de Gestores e Organizações do Terceiro Setor

Os caminhos (possíveis?) da GESTÃO SOCIAL e da SUSTENTABILIDADE nas organizações

(*) Ney Mourão

No Dicionário, a palavra “sustentar” já é um convite a algumas reflexões que têm estreita sintonia com o Terceiro Setor: suster, suportar. É também o nome das “colunas que sustentam a cúpula”. Sustentar é “amparar, escorar, para não arriar”. Manter, financiar. Nutrir, alimentar, prover do necessário. Em sentido figurado, diz respeito, ainda, a “dar ânimo e graça, alentar, fortificar, sustentar o entusiasmo”

Portanto, se uma organização possui SUSTENTABILIDADE, precisamos admitir que ela é um conjunto de pessoas, ações, fatos e iniciativas que estão de pé. Não apenas “funcionando”, no sentido literal de ter funcionalidade, mas também, com ânimo, entusiasmo, alma.

Ora, não há dúvida de que um contexto financeiro favorável seja positivo – e até essencial, para garantir a tranquilidade na busca de outras questões. Mas não é o suficiente e o bastante. Para uma organização ser sustentável, mas ao mesmo tempo ter em seus quadros colaboradores minimamente felizes, ela precisa de buscar um novo paradigma no pensar e agir, um novo formato em sua gestão.

Armani (2001) trata a sustentabilidade como um conjunto amplo de fatores de desenvolvimento institucional. Para ele, para ser sustentável, uma organização precisa, de forma constante, de se re-inventar, não concentrando toda a sua energia institucional nas atividades-fins. Trata-se de pensar, enquanto organização do Terceiro Setor, como espaços privilegiados de influir para a criação de novos modelos de gestão e condução dos processos organizacionais.

Reitero o termo “minimamente felizes”. Habitualmente, o indicador do “desempenho de felicidade” não é levado em conta, em grande parte das organizações – notadamente do Primeiro e Segundo Setores, e mesmo em muitas do chamado Setor Social ou Terceiro Setor. Como disse certa vez a escritora Marina Colassanti, a gente se acostuma, mas não devia. Não deveria se acostumar a fazer sempre o mesmo. E, fazendo o mesmo, reproduzir os erros que fizeram do Primeiro Setor o lugar privilegiado da excessiva burocracia, da corrupção, dos conchavos para concessão de favores, da inépcia, dos processos lentos e dos funcionários ineficazes, e do Segundo Setor a arena primordial do lucro pelo lucro, da vantagem, do ganha-ganha, das chefias autoritárias e desprovidas de bom senso.

Perpetuarmos modelos antigos ou importarmos esses modelos para o Terceiro Setor é construir não um efetivo Setor Social, mas um arremedo qualquer de uma outra coisa, uma invenção ruim, que não contribuirá para um novo modus operandi, um novo modus faciendi.

Nesta perspectiva, um dos maiores erros tem sido, justamente, a ênfase desmedida numa profissionalização pela simples profissionalização. Encarando-se a necessidade de profissionalização como uma solução para todos os problemas das organizações do Terceiro Setor quando, na verdade, os desafios são mais amplos, e fazem parte de toda a estruturação de nossa sociedade – desigual, com um Estado dominador e com empresas vorazmente concebidas para a exploração do capital. Planejar, gerir e avaliar sob uma óptica social: eis o que, para alguns ainda se configura como utopia, justamente por estarem sob um raciocínio, um paradigma antigo.

Primeiro e Segundo Setor sempre se dedicaram mais aos fins que aos meios. Objetiva-se resolver processos ou oferecer bens e serviços. Tal qual na canção em que o pescador encanta-se mais com a rede do que com o mar. Cabe ao Terceiro Setor iniciar uma fase nova de pensamento e gestão: encantar-se com as descobertas de novos processos, o mar de possibilidades de resolução e enfrentamento das diferenças e injustiças sociais indesejáveis.

Angústias assolam, quando se pensa em, por exemplo, “ajustar-se” perante as prerrogativas legais para uma captação de recursos, por exemplo. Neste momento, é hora de jogar o jogo conforme as regras ainda configuradas. E, quase sempre, com cartas já marcadas, deliberadas e sem nenhuma possibilidade de criatividade ou de fazer diferente ou de fazer a diferença. Uma razão instrumentalizada, determinista, que ofusca a autonomia social de indivíduo e suas organizações sedentas do novo (ou não!). Não tenhamos dúvida de que o chamado Marco Legal das Organizações do Terceiro Setor e outras leis de parcerias – em Minas Gerais, mais especificamente, o recente decreto 46.020/2012 ainda tratam de forma tradicional um Setor que precisa descobrir-se diferente e plural.

É claro que o modelo tecnocrata de gestão e de busca da sustentabilidade ainda perdurará por algum tempo. Mas se adotarmos o discurso, e o que é pior a prática da Síndrome de Gabriela – “eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim” -, não criaremos oportunidades de experimentar alternativas novas. Em todo o mundo, inclusive no Brasil, há grupos e pessoas realizando estas experimentações. Mais do que “ilhas de excelência”, trata-se de realizações concretas de gerir o Terceiro Setor de forma diferenciada e de pensar a sustentabilidade de maneira que fuja às atuais regras de dependência ao Primeiro e Segundo setores.

Certo, também, que o que se fala aqui é do exercício de opções. Optar ou não por “ser Oscip” e jogar um jogo com regras mais conhecidas e previsíveis. Optar ou não por uma gestão estratégica tradicional, com indicadores tangíveis, desprezando o que há de mais rico nas entrelinhas sociais cotidianas. Optar ou não por novos paradigmas, alicerçados em acordos, participação e diálogo real e efetivo entre os parceiros. Optar ou não pela possibilidade de atores deliberativos no cenário da organização.

Sempre me aflijo, ao perceber o planejamento, a avaliação, os estudos relativos ao Terceiro Setor pautados pela lógica do mercado ou como simples executora das ações delegadas pelo Estado ou das que ele, Estado, não conseguiu cumprir. Parece-me uma forma de negar a potencialidade deste jeito novo de abordagem, de inibir, mesmo que de forma inconsciente e não arquitetada (mas em alguns casos, proposital). As experiências adquiridas nos dois outros setores deve servir para ampliar esperanças, e não para criar gavetas e formatar mentalidades, princípios e formas de agir.

Citando, mais uma vez Fernando Tenório,

“não significa desprezar, ingenuamente, as tecnologias gerenciais oriundas do Primeiro Setor quanto
a políticas públicas e as do Segundo Setor quanto à produtividade, mas reconstruir, criticamente, a
racionalidade de mercado de origem exclusivamente instrumental, apolítica, em prol de uma
racionalidade que promova, politicamente, a intersubjetividade deliberativa das pessoas alicerçada no
potencial do sujeito social soberano na sociedade, isto é, na cidadania.” (TENÓRIO, 2004).

Ou seja, nós, Terceiro Setor, devemos acreditar sermos o estado da arte dos setores, em termos de gestão e de busca de formas de garantir a sustentabilidade. Utopia? Talvez hoje. Mas foram as utopias que permitiram e fomentaram variadas construções e realizações. E sonho junto já é meio passo pra tirar utopia das mentes e colocá-las em prática. É bem provável que por aí, neste exato momento outros estejam pensando da mesma forma. Basta que os caminhos se encontrem, numa terceira via, terceira margem… Terceiro setor!

REFERÊNCIAS:
ARMANI, Domingos. Sustentabilidade: desafio democrático. In: Sustentabilidade: aids e sociedade civil em debate. Brasília: Ministério da Saúde, 2004, pp. 09-14.
TENÓRIO, Fernando Guilherme. Um espectro ronda o Terceiro Setor, o espectro do mercado. Ensaios de Gestão Social. Coleção Administração e Contabilidade. 2. ed., Ijuí: Editora Unijuí, 2004.

 

* Ney Mourão é jornalista, consultor em Educação e Comunicação, um dos membros da Comissão Editorial deste blog, e sonha com uma sustentabilidade genuína, livre de atrelamentos a ideologias, patrocínios e outras formas de controle. Sabe que tal sonho tem a força de uma utopia, e por isso está aberto ao estabelecimento de redes, para a materialização deste anseio.

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4 comentários em “Os caminhos (possíveis?) da GESTÃO SOCIAL e da SUSTENTABILIDADE nas organizações

  1. cleonir alves
    27/09/2012

    gostei muito a utopia é que nos da força para continuar na luta acreditando num mundo de igualdade para todos

  2. rosario.ambiente
    28/09/2012

    Maravilha!

  3. Margarida Soalheiro
    30/10/2012

    Adorei quando vc fala que o terceiro setor deve ser o estado da arte, este entendimento pode nos “salvar”. Da utopia surgiu muito concreto hoje. Acreditemos. Bjs

  4. Juarez Pituba Júnior
    04/12/2013

    Estou administrador voluntário do TS no Recôncavo da Bahia e penso que a flexibilidade da gestão é importante para a realização da missão, do sonho. Acredito que o maior ganho para a sociedade civil desta região, que escolhe empreender no TS, é o aumento da sua consciência cidadã. Sonhar é o primeiro passo para materialização de qualquer coisa. Estamos sonhando e agindo!! Parabéns!!!

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